sábado, 12 de março de 2011

Pequenos passos, grandes memórias

Lembro-me de quando me chamavas palmo e meio, me sentavas no teu colo e me dizias que as brincadeiras tinham acabado. Ligavas todos os dias para casa da avó quando na maior parte das vezes eu já estava a dormir. Dizias sempre que no dia seguinte me vinhas ver. Ficava sentada nas escadas á tua espera e quando aparecias os meus pequenos olhos começavam a brilhar e eu pequena e inocente corria para os teus braços. Vinhas ver-me todos os Domingos, estives-te sempre presente. Até aos meus sete, oito anos foi sempre assim e foi bom.
Mas os tempos mudaram… Eu esperava nas escadas horas a fio e tu teimavas em não aparecer. Deitava-me na cama a chorar e a avó deitava-se ao meu lado. Dizia sempre que mais tarde ou mais cedo tu virias ver-me. E assim era. Vinhas, falávamos e ias embora. Sentia-me sozinha e não me saía da cabeça que, como ela, também tinhas escolhido o caminho mais fácil - descartar-me! Já não me vinhas ver, já não me ligavas e chegavas mesmo a esquecer-te do meu aniversário!
Eu era uma criança, não entendia os porquês nem os porquês. Fazia birras porque te queria ao pé de mime e para nunca mais teres de ir viver a tua outra vida junto da tua outra família.
Acumulou-se uma raiva dentro de mim…Não queria entender muito menos aceitar tal coisa! Ambos me haviam deixado e tive de crescer sozinha enquanto os dois viviam a sua vida em separado, duas vidas das quais eu não fazia parte. Ainda hoje é assim! Vens ver-me duas vezes por mês e a ela já não a vejo desde Junho,Julho.
As escolhas de ambos foram feitas a pensar no vosso proveito próprio. Em momento algum deixaram de olhar para o vosso próprio “eu” e reflectir acerca das minhas necessidades quer para aquele momento, quer para um futuro a longo prazo. Afinal eu deveria ser o elo de ligação entre vocês ate ao fim das vossas vidas, contudo nem isso dissolveu por um instante que fosse as vossas decisões.
A tentativa de refazerem as vossas vidas continuou, mais uma vez excluindo-me de todas e quaisquer partilhas de afecto, felicidade ou mesmo brigas.
Independentemente de tudo o que se fazia prever, levantei a cabeça, ergui o olhar para o mundo e agarrei-me ao que era e é mais importante…decidi encontrar o meu rumo.
Estou segura de que se hoje sou quem sou e se sou feliz, não foi graças a nenhum dos dois. Curiosamente, faço ainda a pergunta a mim mesma de como teria sido construída a minha vida ao vosso lado. Quem seria eu agora?

Obrigada vó,
por seres tu a levantar-me quando estou no chão, por fazeres o trabalho sujo que ninguém quis fazer, por me dares o carinho que só uma mãe sabe dar.

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